quinta-feira, 11 de março de 2010

Esperança.

Sabe, até que ponto as coisas deixam de ser uma simples preocupação, uma neura passageira, um mau dia, para chegar ao ápice de você acabar achando que talvez tudo não esteja tão certo assim? Começo a acreditar que tem algo errado com tudo isso. É normal você correr aflito pelas ruas, deixando as poças da chuva encharcaram cada pedacinho do seu ser, sem saber pelo que está procurando? É normal sentir o tempo todo, a cada segundo, a cada memória que vem a sua mente, a cada saudade que te percorre, como se hoje fosse o último dia da sua vida? É normal que essa sensação faça você querer viver mais, mas não pela simples vontade de viver, e sim para esquecer o que foi deixado para trás? É normal você se sentir tão só mesmo rodeado de tantas pessoas? É normal você rir, cantar, dançar, conversar, viver, e, mesmo assim, tem uma certeza mais do que absoluta que não passa de um cadáver preso em uma rotina sufocante, em que nada parecer estar em seu devido lugar, em que você pensa que o único jeito de se livrar da dor, da dor de uma simples existência, seja abandonar tudo? Não só abandonar as lágrimas, o sofrimento, a dor, a angústia, a solidão, as memórias, as saudades, mas também abandonar os risos, os abraços, os sorrisos, as boas lembranças, os segundos, milésimos, em que você pensou ser a pessoa mais feliz, mais completa que já pisou no universo? Pergunto-me se valeria à pena jogar fora o tudo, o meu tudo, para que a dor desapareça como um sorriso antes do anúncio da morte de alguém. Aliás, não me pergunto, contesto. Não haveria uma forma de dividir essas duas partes do meu ser, dividir o que fica e o que vai, sem ser um pacote fechado, sem opção de mudança? Não. Não haveria. Mas por quê? Por que tudo é tão injusto? Por que não posso lançar toda dor ao vento e esperar que ela desapareça, que tudo de ruim e doloroso que ocupa minha mente seja oculto em um canto escuro e sombrio, sem vida, onde ninguém possa sentir o mesmo que eu... Não, eu jamais desejaria o mesmo que se passa em mim para alguém. Nem mesmo para o mais perverso dos demônios, a mais falsa das almas, o mais mentiroso dos corações. É por isso que preciso erradicar toda a impureza que me percorre de ponta a ponta. Tenho medo. Medo de compartilhar isso com alguém e proporcionar, nem que seja uma partícula do sofrimento, para quem quer que seja. Melhor acabar com isso logo. Sem despedidas, abraços calorosos, bilhetes de adeus.

Para falar bem a verdade, a única coisa que ainda me prende aqui é a dúvida. É a incerteza sobre o destino que a parte boa do meu ser tomaria. Quer dizer, se eu me abandonasse quem haveria de se lembrar dos meus gostos, do meu sorriso, minhas manias, meu olhar, minha risada, meus momentos? Quem haveria de dizer palavras carinhosas para aqueles que amo? Quem haveria de dizer a certas pessoas o quão importante elas são, o quão forte é a gratidão que sinto por elas? Quem haveria de tentar consertar meus erros, de tentar continuar a vida por mim? Não. Simplesmente, não haveria. E nesse momento, enquanto escrevo isso e ouço os pingos da chuva açoitarem a janela e o vento passar por entre as frestas da porta, é que me dou conta de que é isso, é isso tudo que ainda me prende aqui. Absolutamente, as lembranças. São as lembranças que me movem. As lembranças, e, é claro, a esperança de poder vivê-las de novo.


MF.

0 comentários:

Postar um comentário