
Katie acordou como sempre: mal. Ajoelhou-se no vaso sanitário e vomitou, mesmo sem ter comido algo ruim. Mas já não era novidade, ela estava grávida. Aos 17 anos.
Como sempre, junto com seu enjôo matinal, vieram as lágrimas. As lágrimas da dor de tê-lo perdido em um acidente de carro, de ter perdido o pai do filho que ela carregava. A mãe a olhava com tristeza, sem nada dizer, apenas assistindo a vida da filha desmoronar,
– Não é verdade, diz que não é verdade – disse ela chorando, querendo que Josh ainda estivesse vivo, com ela, e pra sempre. – Você! – ela avançou na direção de seu pai, estapeando-o furiosamente.
– Diga, diga que você o odeia! Diga! – ela gritava para ele, enquanto ele apenas tentava acalmá-la. A mãe a ajudou a se acalmar, como sempre tinha de fazer.
Katie enxugou as lágrimas, escovou os dentes e foi se trocar, como sempre fazia, fingindo ser forte, depois de um ataque de histeria. Colocou a roupa de sempre pra ir pra escola, na pequena cidade do interior onde eles moravam. Na classe, todos olhavam para ela, sabiam o que havia acontecido. As pessoas olhavam ora curiosas, ora com pena. E Katie odiava isso. Ela escondia o rosto atrás do cabelo pra evitar olhares, o que não adiantava. Ela se sentou na sua carteira de sempre e olhou automaticamente para a carteira vazia ao lado, onde ele deveria estar. As pessoas continuavam encarando-a e quando o professor passou a fazê-lo também, foi o que bastou pra ela. Katie se levantou impaciente e correu pra fora da escola. Ela andava chorando por todo o caminho, cobrindo o rosto com as mãos, embora não adiantasse.
Faziam 2 semanas desde que ela o perdera, e é claro que ela não havia superado. Katie correu pra casa, e se trancou em seu quarto. A mãe nem questionou, aquilo já tinha se tornado comum desde que Josh morreu.
No quarto, ela se lembrava do último passeio que deram juntos.
‘’Eles já sabiam sobre sua gravidez, e iam ter o filho com alegria. Tudo estava bem. Eles estavam sentados no banco da caminhonete de Josh, abraçados e perdidamente apaixonados.
– Qual é o problema? – perguntou ele, percebendo certa tensão em Katie – É o seu pai?
Ela apenas balançou a cabeça negativamente.
– Você às vezes pensa no futuro? – ela perguntou encarando-o suavemente. – O que você vê?
– O que você vê? – ele respondeu em tom de brincadeira.
– Estou falando sério, Josh.
Ele olhou pra frente, e pensou um pouco, então olhou-a nos olhos e disse:
- Você. Eu vejo você.
Eles sorriram e se beijaram de novo, um beijo de despedida. Katie abriu a porta da caminhonete, rindo.
– O que você vê? – perguntou Josh, rindo também.
Ela não respondeu, apenas fechou a porta e saiu rindo do carro. Ele saiu também, e eles ficaram abraçados, em frente a casa dela.
– Tchau – disse Josh, beijando-lhe a testa. – Vejo você amanhã.
– Tudo bem, a gente se vê.
– Eu te amo
– Também te amo.
E então ele partiu. Para sempre.’’
Katie ‘’acordou’’, e então sentiu o impulso de ir com ele, ir atrás dele. Fazer tudo que ela não havia feito naquele dia. Ela se levantou da cama e correu pela casa. A mãe dela estava confusa, mas a deixou ir. Não podia impedi-la.
Katie correu pela estrada onde ele passara pela ultima vez com a caminhonete, a estrada que o matou. Ela correu, chorando, até a cruz que indicava o lugar onde o acidente havia acontecido.
Ela se ajoelhou, e então sussurrou:
– Você. Eu vejo você.
Por Lígia Cavini
















