
Subi as escadas correndo, tropeçando nos degrais, que eram compridos demais para meus passos demasiadamente curtos. Cambaleei pelo corredor, quicando nas paredes como se alguém me puxasse com uma corda, e depois soltasse.
Um, dois.
Puxa, solta.
Ardia por mim inteira.
Abri a porta, e meus olhos levaram umas fração de segundos para se acustumar com o ambiente de luz forte. A mente vagava por entre os móveis e os objetos que abrigavam, num rompante, a aflição amargando minha boca.
Deja vu. Aquilo tinha sido meu. As roupas, quantas vezes as tinha vestido? As folhas, quantas letras nelas havia escrito? E as paredes, quanta dor haviam prendido? E o travesseiro, quanto sal já tinha absorvido?
E eu. Quanto tempo ali havia perdido.
Por fim, a dor que pulava de um lado para o outro, borbulhando, estabilizou-se. A bolinha de gude não batia no assoalho, ela estava apenas esquecida num canto qualquer. Meus joelhos cederam, e o fel se repartiu por todo o corpo, até formarem pedaços iguais de um todo-referência.
As mãos procuravam, incessantemente, um ombro a que se apoiarem. E deixei que o anel pendesse e caísse, levantando fagulhas de poeira ao passar pelo ar.
Estava frio. Pela janela era possível observar milhões de luzes. Movimento. Barulho. Vida.
Anestesiou um pouco cogitar que talvez, se algum Deus ainda pudesse ter sido criado, houvesse esperança em algum lugar quente.
Ventava muito. E estava escuro, tão escuro. A luz forte da lâmpada já não tinha efeito nas trevas. Deixei que as sombras transbordassempara fora de mim, e, fortes, quebrassem as paredes.
A escuridão envolvia uma pequena navalha. Na luz, era apenas um objeto que outrora servira para construir círculos num papel. Ali, no escuro gigante e implacável, era um amigo que me estendia a mão.
"Venha", dizia ele. " Vou te levar para longe. Lá é quente e bom, e nunca chove. Sabe as lembranças? Você poderia morar nelas para sempre. Os dias nunca acabariam. Não existe noite lá. Basta apertar minha mão".
Enquanto o amigo se aproximava do meu pulso, observei as marcas de dores menores, que haviam ali sido gravadas. Cicatrizes absurdas.
Ouvi o doce som que a música do outro lado tinha, e as lembranças. Aqueles que amava rodopiavam em minha mente, felizes. "Estou indo!", gritei, exasperada. "Vamos ficar juntos para sempre e sempre e sempre e sempre."
O perfume da morte, agourento e frio, fez com que eu me lembrasse de tudo. E enquanto assistia as memórias se embaçarem, o sangue que pingava no tapete ganhava foco.
Eu tinha, afinal, apertado as mãos de meu amigo.
MF.





