domingo, 30 de maio de 2010

Suicídio


Subi as escadas correndo, tropeçando nos degrais, que eram compridos demais para meus passos demasiadamente curtos. Cambaleei pelo corredor, quicando nas paredes como se alguém me puxasse com uma corda, e depois soltasse.
Um, dois.
Puxa, solta.
Ardia por mim inteira.
Abri a porta, e meus olhos levaram umas fração de segundos para se acustumar com o ambiente de luz forte. A mente vagava por entre os móveis e os objetos que abrigavam, num rompante, a aflição amargando minha boca.
Deja vu. Aquilo tinha sido meu. As roupas, quantas vezes as tinha vestido? As folhas, quantas letras nelas havia escrito? E as paredes, quanta dor haviam prendido? E o travesseiro, quanto sal já tinha absorvido?
E eu. Quanto tempo ali havia perdido.
Por fim, a dor que pulava de um lado para o outro, borbulhando, estabilizou-se. A bolinha de gude não batia no assoalho, ela estava apenas esquecida num canto qualquer. Meus joelhos cederam, e o fel se repartiu por todo o corpo, até formarem pedaços iguais de um todo-referência.
As mãos procuravam, incessantemente, um ombro a que se apoiarem. E deixei que o anel pendesse e caísse, levantando fagulhas de poeira ao passar pelo ar.
Estava frio. Pela janela era possível observar milhões de luzes. Movimento. Barulho. Vida.
Anestesiou um pouco cogitar que talvez, se algum Deus ainda pudesse ter sido criado, houvesse esperança em algum lugar quente.
Ventava muito. E estava escuro, tão escuro. A luz forte da lâmpada já não tinha efeito nas trevas. Deixei que as sombras transbordassempara fora de mim, e, fortes, quebrassem as paredes.
A escuridão envolvia uma pequena navalha. Na luz, era apenas um objeto que outrora servira para construir círculos num papel. Ali, no escuro gigante e implacável, era um amigo que me estendia a mão.
"Venha", dizia ele. " Vou te levar para longe. Lá é quente e bom, e nunca chove. Sabe as lembranças? Você poderia morar nelas para sempre. Os dias nunca acabariam. Não existe noite lá. Basta apertar minha mão".
Enquanto o amigo se aproximava do meu pulso, observei as marcas de dores menores, que haviam ali sido gravadas. Cicatrizes absurdas.
Ouvi o doce som que a música do outro lado tinha, e as lembranças. Aqueles que amava rodopiavam em minha mente, felizes. "Estou indo!", gritei, exasperada. "Vamos ficar juntos para sempre e sempre e sempre e sempre."
O perfume da morte, agourento e frio, fez com que eu me lembrasse de tudo. E enquanto assistia as memórias se embaçarem, o sangue que pingava no tapete ganhava foco.

Eu tinha, afinal, apertado as mãos de meu amigo.

MF.

sexta-feira, 28 de maio de 2010



Enquanto existe, é bom. Enquanto é forte. Enquanto é sol.
Enquanto chove, parece apodrecer.
Um pouquinho de água faz enferrujar.

Eu só queria um abraço, pra me confortar, e dizer que as coisas vão mudar, mudar pra melhor, e que tudo vai terminar bem. Terminar. Porque eu não quero ter que começar tudo de novo. A dor é pior na segunda queda?
Ou seria o medo de cair que faz com que doa mais? Ou mesmo que seja problema seu, e de mais ninguém, que uma ferida arda depois do que pareceria um tempo adequado?
Pra falar bem a verdade, se não fosse uma porcaria chamada esperança, tudo estaria terminado tão rapidamente que nem haveria tempo para sentir dor. Afinal, a dor só vem quando você toma consciência.
E eu não acabaria comigo conscientemente.

MF.

sábado, 22 de maio de 2010


Não consigo dizer se é bom ou mau,
assim como o ar me parece vital.
Onde quer que eu vá, o que quer que eu faça
Sem você, não tem graça.














MF.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Inconstante.


Segredos nunca morrem, apenas adormecem.
Cuidado pra não gritar com a pessoa errada, segredos tem sono leve.


MF.


Já percebeu o quanto somos insaciáveis? O que você queria tanto a um tempo atrás, agora pode não parecer mais tão interessante assim. Eu queria você. Eu preciso de você, mas disso eu não tenho dúvidas hoje. Você sempre foi o número 1 da minha lista de desejos. É agora e sempre será. Mas você não vê? Você não vê o quanto dói suas atitudes burras e sem pensar? Será possível que você se importe tão pouco comigo assim?
Ás vezes eu queria ser forte, só um pouco, pra poder largar mão totalmente de você. Afinal, quantas chances mais eu vou te dar? Nos dar? Eu tenho medo que você me machuque de novo e de novo, um circulo vicioso, que não acaba, e eu sei que você está me machucou novamente. E eu suporto tudo isso. Porque por mais insano que tudo isso seja, é o que me faz feliz. E u posso estar chorando, sofrendo, sangrando, morrendo. Não importa, contanto que eu esteja com você.
Quando alguém está te matando, ou te fazendo mal, a sua vontade é de matá-la também, de odiá-la, certo?
Mas quando se ama aquele que vai matá-la, não restam alternativas. Como se pode correr, como se pode lutar, quando essa atitude magoaria o amado? Se sua vida é tudo que você tem para dar a quem você ama, como não dá-la?
Quando ele é alguém que você ama de verdade.
É assim que eu me sinto em relação a você. Eu te amo, mas não quero amar. Eu preciso de você, mas não quero precisar. O que fazer quando tudo que você precisa, é exatamente o que você não pode ter? Não, eu não posso ter você do jeito que eu quero. Egoísmo? Não, não é egoísmo. Eu não quero você por inteiro, nem todo o seu amor. Só uma parte dele, uma parte ao menos significante dele. Mas parece que eu nunca vou ter. Porque mesmo que você me diga todas as coisas bonitinhas em frente a uma tela de vidro, estúpida, você nunca teve coragem de me encarar nos olhos e dizer que me ama. Será que o seu amor é uma coisa assim tão fácil de se perder? Você não me dá o mínimo valor, isso é fato. Será que eu sou tão burra assim, de não perceber? Sabe, eu não vou estar aqui pra sempre, espero que você esteja ciente disso. Por maior que seja o meu amor por você, meu amor próprio não foi esquecido.
Eu posso estar com você, sim, quando você precisar. Mas não dessa forma, não totalmente entregue às minhas emoções.
Vou estar te amando, por mais doído que isso seja pra nós dois. Mas não pra sempre. Porque nada é. Mas não é disso que eu quero falar.
Quero dizer que eu te odeio. É, eu te odeio. É um ódio diferente, um ódio apaixonado. Mas eu não te odeio sempre, só de vez em quando, quando você me magoa. Isso é odiar, certo? Não, errado. É te amar tanto a ponto de não poder descrever em um só sentimento, o amor.
E por enquanto, só por enquanto, enquanto eu não encontrar forças pra te dizer tudo o que eu quero, e preciso, quero que você saiba que eu vou estar aqui, mas não pra sempre.
Mas simplesmente por perto, te amando e te odiando.
Por Lígia Cavini

quarta-feira, 12 de maio de 2010


Sabe quando a sua vida ta dando errado? Mas tão errado que você nem quer mais saber como melhorá-la, deixa o destino resolver por você, não importa o que ele decida. Que você já lutou tanto, mas tanto que nem tem mais força, ou vontade de lutar mais? O que quer que aconteça, você nem liga mais. E daí? O que me anima? Nada está tão ruim que não possa piorar mais ainda. E se piorar? Nem ligo.
Desanimar? Você diz que não, mas já desanimou faz tempo. Sorrir? Você sorri só pra sua tristeza não contaminar as pessoas a sua volta, que te amam. Quem te odeia? Ta bom, logo eu mesma vou me odiar também. E o amor? O amor não ajuda a levantar, a ver a vida de um jeito melhor, a pessoa que você ama não ilumina sua vida? Mas e quando ela está te derrubando também, nem ligando se você ta bem ou não? Nem falando com você, te animando. Se ela ainda te ama? Você nem quer saber, problema é dela. Os seus amigos? Eles te amam, sim. Mas e quando estão sofrendo com você, indo embora?
É fácil parecer forte, não é? Foi fácil escrever tudo isso. Mas não é fácil ler de novo e perceber que é verdade.
É aquela sensação de vazio que parece que nada pode preencher. E o pior é que você realmente não liga pra isso. Você não corre atrás da felicidade, porque ela parece distante demais, boa demais pra se tornar real. Eu não estou desistindo, nem tentando loucamente. Estou apenas viva, e acho que isso basta. Não é nenhuma vitória, mas também não é um total fracasso. Eu ainda estou de pé. O fundo do poço ainda não chegou, dá pra afundar um pouquinho mais. Quem sabe no chão tenha uma mola? Que me empurre pra cima quando eu cair totalmente? Essa mola pode ser um acontecimento, uma pessoa, ou quem sabe apenas eu, eu mesma, recolhendo meus pedacinhos e colando pacientemente.
Mas por enquanto tudo isso ainda é um sonho, uma realidade distante que eu fico esperando. E enquanto ela não chega? Foda-se!
Por Lígia Cavini